Esperar a vez é uma habilidade que se aprende com a prática, e as brincadeiras são um dos melhores caminhos para treiná-la. Jogos de revezamento, de “parar e começar” e de faz de conta permitem que a criança experimente a espera em um clima leve, sem sermão e sem briga. Neste artigo, você vai encontrar 10 brincadeiras simples para fazer em casa, o que cada uma treina e como adaptá-las ao jeito do seu filho.
Se a espera costuma terminar em choro, empurrão ou “eu primeiro!”, respire: isso é muito comum. Para uma criança pequena, segurar a vontade enquanto o outro joga é um desafio enorme. Não significa mau comportamento nem falha na sua forma de educar.
Por que esperar a vez é tão difícil para as crianças?
Para conseguir esperar, a criança precisa segurar um impulso, lembrar da regra e tolerar o desconforto de não ter o que quer agora. Isso envolve as chamadas funções executivas, que são habilidades mentais que nos ajudam a planejar, lembrar instruções, manter o foco e controlar impulsos. Também envolve a autorregulação, a capacidade de lidar com emoções e comportamentos conforme a situação pede.
O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, explica que não nascemos com essas habilidades prontas. Nascemos com o potencial de desenvolvê-las por meio de interações e prática. Por isso, brincar de esperar funciona: a criança treina em pequenas doses, com um adulto por perto para ajudar.
10 brincadeiras para ensinar a criança a esperar a “sua vez”
1. Estátua (congelar)
Coloque uma música e deixe a criança dançar. Quando a música parar, todos congelam. Quem se mexer só tenta de novo, sem punição.
O que treina: esperar o sinal, frear o corpo e prestar atenção.

2. Sinal vermelho, sinal verde
Você é o semáforo, levante uma placa de cada vez, simulando os sinais do semáfoto. (Em uma cartolina, corte 3 círculos de tamanho médio, pinte cada um deles com as cores de um semáforo e cole um palito de sorvete ou churrasco atrás de cada um). No verde, a criança anda; no amarelo, anda devagar; no vermelho, para.
O que treina: parar e recomeçar sob comando, que faz parte do autocontrole.
3. Torre de blocos em revezamento
Cada um coloca uma peça por vez para construir uma torre. Combine uma frase para quem está esperando, como “agora é a sua vez, daqui a pouco é a minha”.
O que treina: alternar turnos e tolerar o tempo de espera.
4. Jogos de tabuleiro simples
Trilhas, ludo e jogos de dados com poucas regras são ótimos para começar. Se a criança for muito pequena, comece com partidas curtas.
O que treina: respeitar regras, esperar o outro jogar e lidar com ganhar e perder.
5. Bastão da fala
Escolha um objeto, como uma colher de pau ou um bichinho de pelúcia. Só quem está com ele pode falar, e depois ele passa para a próxima pessoa. É ótimo para aquela hora em que todos estão juntos.
O que treina: ouvir sem interromper e esperar a sua vez de falar.

6. Jogo da memória
Cada jogador vira duas cartas por vez. Enquanto espera, a criança acompanha a jogada do outro e guarda na memória o que viu.
O que treina: atenção sustentada, memória de trabalho (a “lousa mental” que guarda informações por pouco tempo) e paciência.
7. Batata quente
Em roda, passem um objeto ao som de uma música. Quando a música para, quem está com o objeto cumpre uma tarefa divertida, como fazer uma careta.
O que treina: esperar o fim da música, passar para o próximo e tolerar a surpresa.
8. Mercadinho de faz de conta
Montem uma fila com bichinhos ou com a família. Cada um “compra” na sua vez, enquanto os outros esperam.
O que treina: entender a espera como parte da vida social, de um jeito lúdico.
9. Cozinhar juntos
Faça uma receita simples, como uma vitamina ou um bolo de caneca, e divida os passos: cada um coloca um ingrediente por vez.
O que treina: seguir uma sequência, esperar o próprio passo e cooperar.
10. Desenho em revezamento
Vocês desenham no mesmo papel, uma linha ou um elemento por vez. Depois, inventem juntos uma história sobre o desenho.
O que treina: alternar, aceitar a ideia do outro e esperar sem desistir da brincadeira.

Resumo: qual brincadeira escolher
| Brincadeira | O que mais treina | Nível de desafio |
|---|---|---|
| Estátua | Frear o corpo e esperar o sinal | Baixo |
| Sinal vermelho, sinal verde | Parar e recomeçar | Baixo |
| Torre de blocos | Revezar turnos | Baixo |
| Batata quente | Esperar o fim da música | Baixo a médio |
| Mercadinho de faz de conta | Fila e vida social | Baixo a médio |
| Desenho em revezamento | Aceitar a ideia do outro | Médio |
| Cozinhar juntos | Seguir sequência | Médio |
| Bastão da fala | Ouvir sem interromper | Médio |
| Jogo da memória | Atenção e paciência | Médio |
| Jogos de tabuleiro | Regras, ganhar e perder | Médio a alto |
Comece pelas brincadeiras de nível baixo e avance quando a criança estiver confortável.
Como conduzir as brincadeiras com carinho
- Nomeie o sentimento: “Eu sei que é difícil esperar. Dá vontade de jogar logo, né?”
- Faça a espera ser curta no começo: aumente o tempo aos poucos.
- Dê algo para fazer enquanto espera: contar até cinco, cantar baixinho ou observar a jogada do outro ajuda.
- Comemore o esforço: “Você esperou e conseguiu!” vale mais do que cobrar perfeição.
- Seja o exemplo: a criança aprende muito vendo você esperar a sua vez com calma.
O que evitar
- Punir ou envergonhar a criança que não consegue esperar. Isso aumenta a tensão e não ensina a habilidade.
- Comparar com irmãos ou primos. Cada criança amadurece em seu tempo.
- Exigir espera longa demais logo no começo.
- Transformar toda brincadeira em lição. A graça precisa continuar.
- Rotular a criança como “impaciente” ou “mal-educada”.
Quando buscar ajuda profissional
Dificuldade para esperar a vez faz parte do desenvolvimento e costuma melhorar com o tempo e a prática. Vale conversar com o pediatra ou com um profissional especializado se:
- a dificuldade é muito intensa e persiste por bastante tempo, mesmo com apoio constante;
- ela traz prejuízos claros na escola, nas amizades ou na rotina da família;
- você percebe que a criança sofre muito ou se isola;
- a escola relata dificuldades frequentes de convivência.
Buscar orientação não é sinal de que algo está errado com a criança ou com você. É uma forma de cuidar e de entender melhor o que ela precisa.
Perguntas frequentes sobre como ensinar a criança a esperar a vez
A partir de que idade a criança consegue esperar a sua vez?
Não existe uma idade exata. A capacidade de esperar se desenvolve gradualmente e varia de uma criança para outra. Por volta dos 2 a 3 anos, muitas crianças já começam a compreender a ideia de esperar por períodos bem curtos, com ajuda de um adulto. Entre 4 e 5 anos, geralmente conseguem esperar por mais tempo e seguir regras simples, embora ainda possam precisar de lembretes e apoio.
Meu filho faz birra quando precisa esperar. É normal?
Sim, é comum, especialmente nos primeiros anos. A frustração de não conseguir o que deseja imediatamente pode ser intensa, e a criança ainda está aprendendo a lidar com esses sentimentos.
Acolha a emoção com calma, diga que entende a frustração e comece treinando esperas bem curtas. Você pode usar frases como: “Eu sei que você queria agora. Vamos esperar um pouquinho; depois será a sua vez.”
Posso usar jogos digitais para ensinar a criança esperar a vez?
Sim. Alguns jogos digitais podem ajudar a criança a praticar a espera e a compreensão de regras. No entanto, as brincadeiras presenciais com outras pessoas costumam ser mais completas, pois permitem conversar, observar as reações dos outros, lidar com a frustração e desenvolver habilidades de convivência.
E se meu filho não quiser brincar de acordo com as regras?
Simplifique as regras e reduza a duração da brincadeira. Convide a criança a participar, mas evite forçá-la. Muitas vezes, ela se envolve melhor quando pode escolher entre algumas opções e sente que também participa da construção da brincadeira. Se a criança continuar frustrada, faça uma pausa e tente novamente em outro momento.
Conte nos comentários qual brincadeira funcionou melhor na sua casa. Acompanhe o nosso canal no YouTube: youtube.com/@educajoy6935.
Conclusão
Ensinar a criança a esperar a vez é um processo, e as brincadeiras são um caminho gentil para isso. Escolha uma ou duas atividades desta lista, comece com esperas curtas e comemore cada pequeno avanço. Com prática e acolhimento, a paciência vai crescendo, e vocês ainda se divertem juntos no caminho.
Referências
- Center on the Developing Child, Harvard University (2014). Activities Guide: Enhancing and Practicing Executive Function Skills with Children from Infancy to Adolescence. developingchild.harvard.edu
- Sociedade Brasileira de Pediatria (2018). Pediatras destacam a importância das brincadeiras para o desenvolvimento infantil. sbp.com.br
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Livro “Vamos brincar?” apresenta brincadeiras para o desenvolvimento infantil. sbp.com.br
A autora é pedagoga formada pela Universidade Cruzeiro do Sul, especialista em Neuropsicopedagogia Clínica (Faculdade Futura) e pós-graduada em Psicologia e Saúde Mental (FAMEESP). É terapeuta habilitada pelo Instituto Dr. Edward Bach (Bach Centre — Inglaterra) e fundadora do portal EducaJoy, onde une neurociência e prática pedagógica para orientar pais e educadores no desenvolvimento infantil.

